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Reportagem de capa - julho/agosto 2005
Dormência em Sementes: mecanismos de sobrevivência das espécies
Dra. Denise Cunha F. S. Dias
dcdias@ufv.br
Uma vez madura, a semente é dispersa da planta-mãe, tornando-se um organismo autônomo, pois tem em sua estrutura um embrião que, sob condições adequadas do ambiente, se desenvolverá, originando uma plântula. No entanto, como isto nem sempre ocorre, questiona-se: por que as sementes de algumas espécies não germinam, mesmo quando semeadas sob condições adequadas de umidade e temperatura?
A resposta pode parecer simples: porque já estão em processo avançado de deterioração, que culmina com a morte do embrião ou, então, estão dormentes. No primeiro caso, as sementes absorvem água, mas não completam as atividades metabólicas essenciais para o crescimento do eixo embrionário, ou seja, não originam uma plântula completa com raiz e parte aérea. Já as sementes dormentes são aquelas que, embora estejam vivas e sob condições de ambiente que normalmente favorecem o processo de germinação, não germinam por terem alguma restrição interna, a qual impede o desenvolvimento do embrião. A germinação só ocorrerá quando tal restrição for superada, o que na natureza pode levar dias, meses ou anos, dependendo da espécie.
O fenômeno da dormência é comum, principalmente em sementes de determinadas hortaliças e forrageiras, algumas fruteiras e de espécies arbóreas e ornamentais, que não germinam logo após a colheita devido aos mecanismos internos, de natureza física ou fisiológica, que bloqueiam a germinação. Esses mecanismos são genéticos e ocorrem no ciclo de vida da espécie, durante a maturação da semente, de modo que, logo após a dispersão, a semente ainda não estará apta para germinar. Essa dormência, que se instala na fase de maturação da semente, é denominada primária. No entanto, em algumas espécies, o bloqueio à germinação se estabelece após a dispersão da semente, induzido por certas condições de estresse ou por um ambiente desfavorável à germinação, caracterizando um outro tipo de dormência, denominada secundária. Sementes não dormentes de alface podem entrar em dormência secundária, quando colocadas para germinar sob temperatura alta.
Assim, a dormência da semente é um importante estádio do ciclo de vida das plantas, sendo caracterizada pela ausência temporária da capacidade de germinação, permitindo que as espécies vegetais sobrevivam às adversidades, principalmente aquelas que dificultem ou impeçam o crescimento vegetativo da planta. Trata-se, portanto, de um fenômeno fundamental para a perpetuação e a sobrevivência de muitas espécies vegetais nos mais variados ecossistemas. Também é graças à dormência que sementes de muitas espécies não germinam no fruto quando este está ainda ligado a planta, pois, após a maturidade fisiológica, havendo condições ambientais favoráveis à germinação - como, por exemplo, aumento da umidade pelo excesso de chuvas -, sementes sem algum tipo de bloqueio ao crescimento do embrião poderão germinar ainda ligadas à planta-mãe. Na prática, é comum observar, nessas condições, a germinação das sementes de feijão e de amendoim dentro da vagem, das de algodão no capulho e das de trigo nas espigas. Cabe ressaltar que a maioria das plantas cultivadas atualmente é representada por variedades, cultivares e híbridos geneticamente melhorados por processos de seleção que eliminaram a dormência, pois os objetivos da agricultura moderna são a rapidez e a uniformidade da germinação da semente e da emergência da plântula em campo. Esse é o caso das sementes de soja, feijão, girassol, milho e outras cuja sobrevivência é dependente do homem.
Contudo, existem muitas espécies que têm a sobrevivência garantida pela dormência. O que varia bastante entre as espécies vegetais é o período de duração da dormência, que pode ser de apenas alguns dias, de alguns meses ou de vários anos. Mesmo para uma mesma espécie, esse período pode variar em função do genótipo, do ambiente onde a semente foi produzida e de outros fatores. Além disso, sementes oriundas de uma mesma planta têm intensidades distintas de dormência, para que a germinação ocorra ao longo do tempo, em intervalos regulares, à medida que a dormência é superada, aumentando a probabilidade dos indivíduos sobreviverem. Assim, o impedimento à germinação da semente, estabelecido pela dormência, se constitui em estratégia benéfica, por distribuir a germinação ao longo do tempo e permitir à espécie "escapar" de condições adversas ao crescimento da plântula. Trata-se, portanto, de um fenômeno que contribui para que a germinação da semente só ocorra em uma época ou estação favorável ao estabelecimento da plântula, garantindo a sobrevivência da espécie. Contudo, uma coisa é certa: para qualquer que seja a espécie, com o decorrer do tempo a dormência torna-se menos intensa, até que seja completamente superada. Assim, mesmo sendo viável e estando sob condições ambientais favoráveis à germinação (temperatura, disponibilidade de água e oxigênio), a semente não germinará até que o mecanismo de impedimento deixe de atuar.
Portanto, sob o ponto de vista evolutivo, a dormência é uma característica adaptativa que assegura a sobrevivência das espécies nos diferentes ecossistemas. Como conseqüência, é um dos fatores que contribui para a persistência das plantas daninhas, dificultando o seu controle e a sua erradicação com prejuízos econômicos para os agricultores. Apesar do controle sistemático dessas plantas, por meio de capinas e herbicidas, todos os anos milhares emergem durante o cultivo das lavouras, uma vez que as sementes dessas espécies sobrevivem no solo por vários anos devido à dormência. Um exemplo que ilustra esta situação é a dificuldade de erradicação do arroz vermelho nas lavouras de arroz nas mais diferentes regiões.
 Arroz Vermelho
As espécies que evoluíram em regiões tropicais úmidas desenvolveram mecanismos de impedimento à absorção de água, para evitar que a germinação ocorra logo após a dispersão da semente, assegurando a sobrevivência. Já em clima semi-árido, a escassez de chuvas é o fator que limita a sobrevivência das espécies; sementes típicas destas regiões geralmente têm substâncias inibidoras da germinação, solúveis em água, que só serão lixiviadas após chuva intensa, de modo que a germinação só ocorrerá quando houver disponibilidade de água no solo suficiente para o estabelecimento da plântula. Em florestas muito densas, a ausência de luz sob o dossel é o fator que impede a germinação das sementes de diversas espécies, que só germinam em presença de luz ou que necessitam dessa para superar a dormência, sendo denominadas fotoblásticas positivas. Só após a abertura de uma clareira, como ocorre, por exemplo, após uma queimada ou com a queda de um galho ou mesmo de uma árvore, é que tais sementes germinarão, recompondo a vegetação daquela área.
 Ave-do-Paraíso
São consideradas sementes fotoblásticas positivas as de gramíneas forrageiras (braquiárias, capim colonião e outras) e invasoras (tiririca, capim arroz, capim marmelada), certas bromélias de ecossistemas de restinga, alguns cultivares de alface e espécies nativas arbóreas pioneiras (Cecropia spp., Cróton sp e Miconia sp.).
A dormência também pode ser um obstáculo para a agricultura, uma vez que gera desuniformidade na emergência das plântulas em campo, havendo necessidade, muitas vezes, de se utilizar tratamento adequado para a superação da dormência antes da semeadura, o que nem sempre é prático e viável. Em sementes recém colhidas de leguminosas utilizadas na adubação verde, como mucuna, guandu, feijão-de-porco, lab-lab, a dormência pode acarretar dois tipos de problema:
1) aumento da quantidade de sementes para a semeadura, pois a dormência pós-colheita é acentuada, de modo que grande proporção de sementes do lote não germinará;
2) muitas sementes dormentes permanecem viáveis no solo e germinarão durante o desenvolvimento das futuras culturas instaladas na área, constituindo, portanto, plantas invasoras.
 Mucuna
Conhecer os mecanismos de dormência e a sua duração para as diferentes espécies tem importância tanto ecológica como também econômica, pois auxilia na definição sobre a necessidade ou não de se utilizar tratamentos específicos para atuarem no metabolismo da semente, liberando, o embrião para o desenvolvimento ou tornando-o apto para germinar.
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