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Reportagem de capa
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continuação: Pesquisa Científica


Na cultura da batata, quase 80% da semente de alta sanidade utilizada no Brasil é importada, a um custo anual de U$ 9 milhões. A batata semente importada representa 35 a 40% do custo de produção da lavoura por hectare. A par desta situação, foi desenvolvida uma técnica de aproveitamento do broto para a produção de mini-tubérculos, utilizando como matéria-prima a batata semente importada. O uso de mini-tubérculos reduz 40% o custo no plantio, o que possibilitara a diminuição do número de importações.

Técnicas moleculares baseadas na análise de proteínas e DNA têm sido aplicadas nas pesquisas agrícolas, o que tem permitido rápidos avanços nos estudos sobre qualidade de sementes. As isoenzimas apresentam variações em função dos estádios de desenvolvimento ou deterioração das sementes e podem ser utilizadas como marcadores de dormência, germinação e deterioração das sementes. Os métodos baseados em PCR (reação em cadeia da polimerase), tais como RAPD, ALFP e SSR, que utilizam o DNA, têm sido preferencialmente usados para identificação, caracterização de cultivares e determinação de pureza genética em lotes de sementes. A análise de imagens, apesar do elevado custo dos equipamentos, a partir de radiografias de raios - X, já é uma realidade para a determinação da qualidade das sementes, que assegura grande precisão. As imagens radiográficas são examinadas uma a uma de modo ampliado, indicando detalhadamente as condições das sementes. Posteriormente, as sementes submetidas aos raios-X são levadas ao teste de germinação e desta forma, é possível o estabelecimento de possíveis relações entre as imagens e as ocorrências na germinação.

A imagem digital de raios-X serve para avaliar a morfologia do eixo embrionário e tecido de reserva. É utilizada para identificar danos mecânicos, de secagem e ataque de insetos, além dos danos externos e internos. Também permite observar danos por umidade e por percevejo. Em sementes de arroz, a grande vantagem do teste de raios-X é a identificação das fissuras ocasionadas pela secagem com altas temperaturas.



Proteção da flor masculina de milho: fruto do esforço científico


A pesquisa na área de sementes, além de exigir todo rigor científico, pode ser também ser muito trabalhosa, principalmente a de campo. Exemplo disto é o estudo da maturidade fisiológica em uma determinada espécie. Todos os cuidados de preparo de solo e manejo da cultura, assim como, preventivamente, controles de pragas e as doenças devem ser rigorosamente seguidos. No momento da antese, as plantas devem ser marcadas para o estudo. O número de plantas usado é variável, em função do número de sementes por planta, das avaliações a serem executadas e da precisão requerida no experimento e pode atingir 4000 a 5000 plantas. As colheitas devem ser realizadas em intervalos de 4 a 7 dias e deverão cobrir todo o período reprodutivo da cultura. A cada colheita, um número de plantas deve ser coletado para as avaliações planejadas, a fim de acompanhar a maturação das sementes. No laboratório, o material proveniente de cada colheita é submetido a determinação de teor de água, tamanho ou volume, massa seca, germinação e vigor, empregando um grupo de testes e composição química. As chuvas, ataque de doenças, animais, ventos fortes e outras condições adversas são freqüentes na fase de campo e podem inviabilizar o experimento, caso contrário, o grande volume de dados deve ser tabulado, analisado e interpretado. A conclusão, por exemplo, de que o máximo vigor das sementes de sorgo é alcançado aos 45 dias após a fecundação, com umidade em torno de 30%, não dá a idéia do volume de trabalho executado.

A pesquisa científica não é barata, mesmo a de simples execução ou realizada em períodos curtos tem custos elevados, pois envolve equipamentos, reagentes, materiais biológicos e mão-de-obra especializada. Os grandes projetos realizados em rede de cooperação científica envolvem grandes investimentos. A pesquisa sobre o genoma da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da praga do amarelinho, que ataca a laranja, foi orçada em U$ 15 milhões. O custo da pesquisa é uma limitação ao desenvolvimento científico e tecnológico.

Há um relativo consenso que os países em desenvolvimento investem pouco em pesquisa agrícola, com exceção de algumas nações asiáticas, evidenciando assim que a produção científica está na dependência direta dos investimentos aplicados, e que o insuficiente apoio governamental configura-se como um dos principais fatores de inibição de maior desenvolvimento científico e tecnológico de um país.

Embora se possa pretender a universalização do conhecimento científico e tecnológico, é inegável que sua recepção, apropriação e utilização são processos localizados socialmente e dependentes tanto das especificidades culturais de cada sociedade, quanto da realidade social, histórica e concreta destas sociedades.

De qualquer forma, embora exista disponibilidade de recursos necessários à pesquisa científica, pesquisadores capacitados, criativos e dispostos a abraçar o árduo labor científico, há necessidade de outros mecanismos capazes de permitir que a sociedade usufrua plenamente dos resultados alcançados pela pesquisa.

RESUMO

A pesquisa utiliza procedimentos lógicos e sistemáticos na compreensão e transformação da realidade, a fim de elaborar novos conhecimentos.

Essa atividade requer do pesquisador curiosidade, conhecimento científico, criatividade e persistência. A adequação metodológica e a isenção na análise interpretativa dos dados asseguram um componente indispensável, a confiabilidade da pesquisa. A contribuição da pesquisa agrícola tem permitido ganhos substanciais de produtividade pela otimização no uso de sementes e máquinas, pela eficiência no controle fitossanitário e pelo aprimoramento das tecnologias de secagem e armazenamento. A exemplo disso, no Brasil, nas últimas três décadas, a produção de soja apresentou aumentos expressivos, decorrentes do desenvolvimento de cultivares adaptados às regiões de produção, acompanhados da utilização de sementes de alta qualidade. Os resultados de pesquisa, no entanto, nem sempre refletem o esforço despendido, o investimento realizado e, às vezes, nem mesmo sua importância na construção do conhecimento.


Esta matéria foi solicitada aos Professores Nilson Lemos de Menezes, da Universidade Federal de Santa Maria, e Francisco Amaral Villela, da Universidade Federal de Pelotas, ambos pesquisadores bolsistas do Conselho Nacional de Pesquisas Tecnológicas (CNPq), para sensibilizar os leitores da SEED News sobre o trabalho envolvido, a criatividade, a confiabilidade dos resultados e os recursos necessários para obter-se um produto ou desenvolver um processo.





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