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Reportagem de capa - jan/fev 2004
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Recobrimento de Sementes
Leopoldo Baudet
lmbaudet@ufpel.edu.br
Wolmer Peres
wolperes@uol.com.br


Imagine o agricultor, comprador de sementes, que tenha à sua disposição um pacote que contenha exatamente o que ele quer para ter segurança de uma boa proteção, germinação, emergência e estande uniforme na sua lavoura. Imagine ainda que esse pacote está aderido à própria semente, isto é, o pacote está contido em cada semente que ele comprou. A semente está recoberta com fungicidas, inseticidas, herbicidas, nutrientes, materiais hidrofóbicos, etc, e ainda tem a cor do seu time favorito. Esse pacote é produto de um tratamento de sementes de alta qualidade, feito com segurança para proteger as sementes de vários patógenos e melhorar seu fluxo e plantabilidade. Isto é possível na agricultura de hoje e será discutido neste trabalho.

O tratamento convencional de sementes usa produtos químicos para proteger as sementes e as plântulas contra organismos causadores de doenças, insetos e outras pragas. O tratamento é bem aceito hoje como prática agronômica para sementes da maioria das espécies e é rotina no beneficiamento. Porém, o tratamento convencional de sementes é limitado quanto à diversidade de produtos a serem aplicados e apresenta riscos para a saúde dos operadores, pela poeira e manuseio de produtos altamente tóxicos. Neste sentido, foi desenvolvido um novo processo, o recobrimento de sementes. A partir da década de 90, esta tecnologia vem se localizando no topo da indústria sementeira, em função das preocupações relativas à segurança no trabalho e proteção do meio ambiente, bem como a semeadura de precisão, uma vez que o processo serve para melhorar a plantabilidade das sementes.

O recobrimento foi primeiramente utilizado pelos chineses, que revestiam as sementes de arroz com lodo para evitar que boiassem. Os primeiros passos desta tecnologia, há várias décadas, foram dados em sementes de hortaliças, pela peletização das sementes para melhorar sua plantabilidade. O custo das lavouras de hortaliças, especificamente no caso da cenoura, alcançava níveis muito altos, principalmente de mão-de-obra, pela necessidade de fazer raleio para uniformizar o estande. A peletização e o recobrimento das sementes de hortaliças vieram a resolver este problema ao uniformizar o tamanho e formato das sementes, assegurando a precisão na semeadura e na aplicação dos produtos químicos, causando ainda uma significativa redução nos custos da lavoura.

O recobrimento de sementes consiste na deposição de uma camada fina e uniforme de um polímero à superfície da semente. Em geral, o recobrimento representa um terço de cobertura e a semente dois terços (a semente peletizada pode chegar a 50 partes de material e uma parte de semente). Pode ser utilizado conjuntamente com o tratamento químico e biológico um material protetor em quantidade muito precisa e com impacto mínimo sobre o meio ambiente. Isto faz esta tecnologia altamente eficiente na proteção das sementes, ao combinar fungicidas com inseticida (ingredientes ativos) e com uma camada ou filme feito de polímero líquido (adesivo). O recobrimento envolve tanto a peletização de sementes, como o revestimento com filmes de polímeros e outros produtos para encapsulamento da semente. Quanto à metodologia de aplicação, as sementes são misturadas com um adesivo, de forma que cada semente seja encoberta. Os adesivos devem ser solúveis em água e são geralmente utilizados polímeros orgânicos, amidos, resinas naturais, açúcares, colas de origem animal e mucilagens vegetais que são dispersos em água para produzir um fluído pulverizável. Logo são acrescentados os sólidos do recobrimento. Quando a semente entra em contato com o solo, o recobrimento não deve oferecer resistência à radícula e a estrutura que irá formar a parte aérea da planta, devendo permitir a passagem de água e oxigênio para que o embrião comece a desenvolver-se naturalmente.

Detalhes específicos da metodologia empregada são geralmente segredos comerciais, logo, somente estão disponíveis descrições gerais. A chave do sucesso inclui a seleção do adesivo apropriado, da formulação apropriada, da intensidade de mistura apropriada e de um adequado balanceamento entre as partes do sistema: semente, adesivo, método de trabalho, tempo de secagem e duração do tratamento.




Esta avançada tecnologia permite combinar nutrientes, micro elementos, fungicidas, inseticida e composto buffer, modificando a permeabilidade a gases e umidade das sementes. Deve permitir uma degradação fácil do pellet e ser de natureza biodegradável. Deve permitir ainda que as sementes germinem e emerjam sob condições abaixo das ideais de preparo do solo e umidade. O recobrimento com fungicidas tem demonstrado aumentos significativos da porcentagem de emergência de plântulas e a sobrevivência das mesmas em solos de pH na faixa de 4,8 a 8,1.

No caso de sementes de milho híbrido, foi desenvolvido o recobrimento para retardar a germinação das sementes e conseqüentemente sua floração. Isto ajuda ao ajuste do período de floração da linha paterna que é a polinizadora e que geralmente deve ser semeada mais tarde, já que amadurece mais cedo. Outras vantagens são: uma distribuição do pólen num período mais amplo, podendo aumentar o rendimento em até 5%; a disponibilidade do pólen num período maior, que tende a produzir mais sementes achatadas de tamanhos médios. O uso dos polímeros no controle da época de germinação em sementes de milho híbrido foi reportado pela Landec Ag. com o polímero Intellicoat, que foi originado de ácidos graxos naturais, que permite ao produtor semear mais cedo, já que regula o momento em que a semente vai absorver umidade para iniciar a germinação. O polímero é permeável ou impermeável à água, de acordo com a temperatura.

O tratamento convencional é aplicado na base de volume de produto por peso de sementes. Neste sentido, a grande variação das sementes em tamanho e densidade de lote para lote, limita a eficácia da aplicação dos produtos, pois depende da uniformidade do lote de sementes. Como a tendência é a uniformização do tamanho das sementes de milho e soja, que são classificadas ou padronizadas como rotina no beneficiamento, o recobrimento vem facilitar o tratamento, o que já vem acontecendo em sementes de beterraba açucareira, onde fungicida sistêmico é aplicado em gramas de produto por 100.000 sementes.



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