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Reportagem de capa - set/out 2002
O Desafio das 100 Milhões de Toneladas de Grãos
Eng. Agr. Ivo Marcos Carraro
Diretor Executivo Coodetec
carraro@coodetec.com.br
O avanço rápido da produção brasileira de grãos tem sido, nos últimos anos, objeto de citações orgulhosas de políticos, lideranças e jornalistas em diversas oportunidades e, de fato, é um motivo de orgulho para todos os brasileiros. Afinal, vivemos em um país de contrastes, que sempre deu maior valor ao estrangeiro, ao importado, pouco valorizando as potencialidades nativas do país. O fenômeno que vem ocorrendo com a nossa agricultura, sempre desacreditada por nossa população urbana e pela maioria dos políticos, que sempre viram na industrialização a redenção para nossa economia, está mostrando não só a sua competência e vocação, como também o imenso potencial dos recursos naturais de que dispomos.
Ao se analisar o período de 1990 a 2002, fica evidente que enquanto a área plantada com grãos cresceu apenas 7,9%, a produção aumentou no mesmo período 74,7%. A participação do agronegócio nas exportações, responsável nos últimos anos pelo superávit na balança de pagamentos, tem sido observada e aplaudida pela maioria dos políticos e economistas. Muitos fatores contribuíram para este espetacular avanço na produtividade, que vem colocando o Brasil em destaque no cenário internacional como um país agrícola por excelência. É evidente que há um longo caminho ainda a percorrer, e o que está acontecendo no cenário dos últimos anos é apenas um indicativo das potencialidades da atividade agropecuária em nosso país.
Os últimos saltos conquistados na produção de grãos não ocorreram por acaso. Ao observar-se mais detidamente o gráfico da página seguinte, percebe-se que vínhamos de um patamar de 75 milhões de toneladas, até 1998, e nos dois anos seguintes este patamar subiu para 82 a 84 milhões, e que nos dois anos seguintes nos aproximamos muito dos 100 milhões, já que a safra 2002 ainda não está definitivamente computada, havendo ainda as lavouras de inverno, cujos valores são ainda estimados. De qualquer modo, o patamar próximo aos 100 milhões de toneladas está consolidado e estabelece um ritmo de crescimento no que tange à capacidade de crescimento, seja por incremento na produtividade ou, eventualmente, por agregação de área.
É importante salientar que estes dois últimos saltos coincidem com o novo ambiente de proteção de cultivares, que em seu início envolveu praticamente todos os produtos geradores de grãos, e que proporcionou, sem dúvidas, maiores investimentos e profissionalização do setor sementeiro, com influência marcante sobre o crescimento da produtividade em praticamente todas as culturas.
As condições naturais, embora de grande diversidade, oferecem um imenso leque de oportunidades para este desenvolvimento, porém sem a concorrência dos fatores humanos isto não seria possível. Durante vários anos houve uma preparação muda e silenciosa dos agricultores de todas as categorias (pequenos, médios e grandes), da pesquisa e dos organismos de extensão nacionais oficiais e privados, das indústrias de equipamentos e insumos, e das políticas de governos federal e estaduais.
Iniciando pelo Sul e Sudeste, a agricultura empresarial mecanizada passou por períodos difíceis, com uma exploração inconseqüente, que não se preocupava em conservar os recursos naturais. Em seguida, esta mesmas regiões acabaram incorporando tecnologias de conservação de seus solos que foram sendo transferidas para outras regiões, e hoje o Brasil é um dos países que mais utiliza a prática do Plantio Direto, tendo praticamente dominado o terrível problema da erosão e da degradação dos solos. Em seguida, em uma caminhada de sul a norte, muitos agricultores povoaram as imensas áreas do Centro-Oeste e Nordeste, desbravando uma região antes considerada inapta para agricultura - os Cerrados Brasileiros. Nesta trajetória novamente muitos segmentos tiveram sua participação, começando pela pesquisa nacional que, inicialmente, desmistificou a baixa fertilidade, desenvolvendo sistemas de correção que transformaram aquelas terras em fontes de riqueza para muitos que tiveram coragem e pioneirismo de enfrentar as dificuldades iniciais. Em seguida, as empresas de melhoramento de plantas se encarregaram de criar cultivares adaptadas a solo e clima, viabilizando assim a consolidação deste crescimento. Quando dizemos que estamos concluindo um período de discretos preparativos, significa que estes trinta anos serviram para mostrar a nós mesmos que temos capacidade e condições de participar cada vez mais do desafio de competir com as grandes nações agrícolas do mundo, pois sem aumentar praticamente nada em área, quase dobramos a produção. Isto equivale a dizer que estivemos preparando as armas para a luta. Se para os primeiros movimentos de agricultura extensiva e mecanizada do sul buscamos tecnologia em outros países, o avanço sobre o Centro-Oeste foi praticamente autóctone, pois não há no mundo região com condições semelhantes. Portanto, tivemos que superar as dificuldades com nossos próprios recursos, e demonstramos competência para isto.
Ocorre que desta região exploramos apenas mínima parte, restando ainda a ser incorporado no processo produtivo mais de 90 milhões de hectares, quase três vezes mais que os atuais 39 milhões, sem que se perca nenhuma área de preservação. É área disponível para a agricultura com a tecnologia apropriada totalmente dominada, pois já está sendo bem sucedida nas partes já cultivadas.

Se dificuldades existem, os pioneiros estão atentos, muitas vezes realizando as obras que governos não puderam ou não quiseram fazer. Logística de transporte, armazenagem, mercado, tecnologia em sementes, agroindustrialização - pouco a pouco vão sendo superadas as limitações com tenacidade, persistência e criatividade. É chegada a hora de se levar a sério a agricultura e profissionalizar mais os setores que ainda estão carentes. Temos visto no Ministro Pratini de Moraes esta fé nas nossas potencialidades, lutando para aportar os re-cursos necessários e, principalmente, liderando o movimento de abertura de mercados para os produtos brasileiros, como deve fazer um ministro desta pasta. Não é por acaso que os países tradicionalmente agrícolas do bloco dos ricos não querem abrir mão dos privilégios concedidos aos seus agricultores. Trata-se de uma guerra da qual devemos participar, e nela o papel do Governo Federal continuará sendo de liderança, seja qual for sua bandeira partidária, principalmente na batalha para garantir acesso aos mercados em igualdade de condições. Se assim for, nossa competitividade aparecerá, com certeza. O que se percebe é que, mesmo lentamente, estas barreiras tendem a diminuir, e então deveremos estar preparados. Neste contexto, há espaço para os pequenos agricultores? Sim, principalmente se estiverem organizados em cooperativas ou associações, com acesso aos mercados e com oportunidades de estar devidamente atualizados em seus nichos de produtos.
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