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Reportagem de capa - maio/jun 2002
Germoplasma: o que é isso?
Dra. Clara Goedert
EMBRAPA - CENARGEN
cgoedert@cenargen.embrapa.br
CONCEITOS
GERMOPLASMA
É o elemento dos recursos genéticos que maneja a variabilidade genética entre e dentro da espécie, com fins de utilização para a pesquisa em geral, especialmente para o melhoramento genético, inclusive a bio-tecnologia.
RECURSOS GENÉTICOS
São as espécies de plantas, animais e microorganismos de valor socio-econômico atual e potencial, para uso em benefício da humanidade. Assim, os recursos genéticos compreendem a diversidade do material genético contido nas variedades primitivas, obsoletas, tradicionais, modernas, parentes silvestres das espécies-alvo, espécies silvestres ou linhas primitivas, que podem ser usadas, agora ou no futuro, para a alimentação e agricultura. Os recursos genéticos constituem-se na parte essencial da biodiversidade, responsáveis pelo desenvolvimento sustentável da agricultura e da agroindústria.
BIODIVERSIDADE OU DIVERSIDADE BIOLÓGICA
Engloba todas as espécies de plantas, animais e microorganismos, assim como os ecossistemas e os processos ecológicos dos quais estas espécies fazem parte.
A Biodiversidade é considerada em três níveis:
1) diversidade genética - que representa a soma total da informação genética contida nos genes de indivíduos de plantas, animais e de microorganismos que habitam a Terra;
2) diversidade de espécies - que se refere à variedade de organismos vivos na Terra, que estima-se estar entre 5 e 30 milhões ou mais, embora somente cerca de 1,4 milhão tenha sido descrito; e
3) diversidade de ecossistemas - que se refere à variedade de habitats, comunidades biológicas e processos ecológicos na biosfera.

Muitos são os tipos de sementes em bancos de germoplasma
Importância dos recursos genéticos
O mundo hoje se depara com três desafios de magnitude sem precedentes: (1) fome, (2) degradação ambiental e (3) crescimento populacional. Se considerados separadamente, estes desafios apresentam um conjunto de problemas complexos e de alta cobrança; se tomados juntos, eles são uma catástrofe em qualquer país.
A Convenção da Diversidade Biológica no Rio de Janeiro, em 1992, chamou a atenção dos povos, para o grande número de temas do meio ambiente, que estão em estado crítico. Já a Conferência do Cairo, em 1994, chamou a atenção para o rápido crescimento da população mundial. Tão importante quanto estes temas, e igualmente crítico para a humanidade, é a forte pressão sobre a necessidade de desenvolver programas de melhoramento para aumentar rapidamente a produtividade agrícola, considerando que, mesmo os cenários demográficos mais otimistas, predizem que a população global no ano de 2050 será de 10 bilhões de pessoas. Esta população vai demandar comida. Vai demandar ser alimentada.
O espectro da fome, o flagelo da degradação ambiental e o alto índice do crescimento populacional, principalmente nos países mais pobres, constituem-se nos maiores e mais urgentes desafios, que a comunidade mundial tem que encarar no século 21.
Como alimentar esta crescente população? Para alguns países, não há outra alternativa senão o maior uso de terras marginais para a agricultura. Entretanto, este enfoque requer o melhoramento de variedades especificas para cultivo em condições desfavoráveis. Neste contexto, se queremos evitar danos adicionais aos ambientes marginais e a redução cada vez maior dos rendimentos, grande parte desse incremento da produção de alimentos que buscamos terá que vir de um aumento da produtividade nas terras agrícolas existentes. Por outro lado, a manipulação genética das plantas (que hoje é proibida no Brasil) apresenta-se como uma das principais formas de melhorar a produtividade agrícola. Outra alternativa seria abrir novas fronteiras agrícolas longe dos centros populacionais; contudo, esta estratégia poderia destruir ou ameaçar seriamente os habitats naturais do mundo inteiro.
Nossas regiões de espécies silvestres ainda existentes, mas já bastante reduzidas, são armazéns de genes potenciais para uso na agricultura, na medicina e na indústria, e estão cada vez mais ameaçadas pelos assentamentos humanos abusivos e impróprios. Para erradicar a fome e continuar a alimentar esta crescente população, será necessário se chegar a uma taxa de aumento na produção de alimentos, nunca antes alcançado, e talvez quase impossível de ser alcançado.
Os recursos genéticos vegetais deverão, então, desempenhar um papel chave no alcance de tais níveis de produtividade, uma vez que, para produzir plantas mais adaptadas e com maior capacidade de rendimento, o melhorista de plantas depende, essencialmente, da variabilidade genética entre e dentro das espécies, ou seja, do germoplasma, em todas as suas formas apresentadas na natureza.
A interdependência dos recursos genéticos
Atualmente, a agricultura desenvolvida em todos os países é fortemente dependente de recursos genéticos procedentes de outras partes do mundo. Esta "interdependência" é o resultado de séculos de intercâmbio de materiais e interações ecológicas, ou seja, os cultivos originários de um país ou região, crescem e prosperam em outras partes do mundo. Estudos mostram que a América do Norte é totalmente dependente, para sua alimentação e sua indústria, de espécies originárias de outros países, enquanto que na África, ao Sul do Saara, estima-se uma dependência de 87% de recursos genéticos de outras regiões. Culturas como a mandioca, milho, amendoim e feijões, que têm origem na América Latina, tornaram-se alimentos básicos em muitos países da África, como por exemplo a mandioca, que se tornou o alimento principal para 200 milhões de africanos em 31 países.
A dependência dos países por espécies exóticas significa que nenhum país, embora seja rico em biodiversidade, é auto-suficiente em recursos genéticos. O exemplo maior é o Brasil, que, embora se constituindo no país de maior biodiversidade do mundo, tem a metade de sua energia alimentar baseada em três espécies exóticas: arroz, trigo e milho; mandioca, que é originária do Brasil, contribui apenas com 7% para a alimentação dos brasileiros.
A dependência da humanidade em relação aos recursos genéticos para a continuação da vida no planeta é total e indiscutível. Portanto, a conservação dos recursos genéticos é estratégica na preservação de fontes de variabilidade, que propiciam os elementos para satisfazer as demandas crescentes, para a segurança alimentar da população mundial.
A conservação da biodiversidade é um tema muito incluído nas agendas das organizações governamentais e não-governamentais nacionais e internacionais, mas, freqüentemente, se constitui apenas em uma proposta que não sai do papel, já que as atividades conservacionistas, sofrem crônica insuficiência de recursos humanos e financeiros.
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