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Reportagem de capa - nov/dez 2008
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Falhas e duplos na produtividade

Luis Osmar Braga Schuch
lobs@ufpel.edu.br
Silmar Teichert Peske




O nível tecnológico utilizado nas lavouras é atualmente elevado, proporcionando as altas produtividades por área que têm-se observado nas lavouras comerciais.

Muito tem sido feito em vários aspectos agronômicos, entre os quais principalmente no melhoramento genético, para obtenção de cultivares cada vez mais produtivas e com resistência ou tolerância aos estresses.

Assim, existe um grande esforço de utilização de cultivares superiores, sementes de elevada qualidade, utilização adequada de fertilizantes e corretivos, semeadura em época adequada, controle de plantas daninhas, pragas e doenças. Tudo isso envolvendo um custo considerável.

Um aspecto fundamental para a maximização da produtividade diz respeito ao número de plantas a serem utilizadas e a sua distribuição na área. Essa definição da população de plantas tem sido estudada pela pesquisa, e é dependente da interação entre a cultivar utilizada e das condições de cultivo que provavelmente ocorrerão, como por exemplo a fertilidade do solo, condições de precipitação, temperatura ambiente, local e época de semeadura, entre outros fatores. Atualmente, as recomendações específicas das empresas obtentoras das cultivares já indicam o número de plantas a serem utilizadas por área para cada uma de suas cultivares e para as diferentes regiões onde são indicadas.

Esse número de plantas recomendado por área, especificamente por cultivar e condições de cultivo, distribuído nas linhas de semeadura, determina a distância que as plantas ficarão localizadas entre si. A melhor distribuição de plantas ao longo da linha é aquela em que as plantas fiquem exatamente a uma mesma distância uma da outra. Quer dizer, perfeitamente distribuídas ao longo da linha de semeadura. Essas condições proporcionam o menor grau de competição entre as plantas, uma vez que cada planta estaria localizada à mesma distância de cada uma das duas plantas vizinhas na linha.

Assim, nessa condição ideal, em uma lavoura de milho semeada em um espaçamento de 80cm e com uma população de 60.000 plantas/ha, cada planta fica distanciada 20,8cm das plantas vizinhas.

No mesmo raciocínio, em uma lavoura de soja semeada com um espaçamento de 45cm entre linhas, em uma população de plantas de 250.000 plantas/ha, cada planta ficaria distanciada 8,9cm das plantas vizinhas.

Para a obtenção dessa distribuição ideal das plantas na lavoura, é necessário que cada semente seja colocada na posição correta, e que essa semente efetivamente origine uma planta, ou seja, 100% das sementes efetivamente produzam uma planta no campo.

Numa lavoura altamente produtiva, as plantas se encontram submetidas a elevado grau de competição entre si. Quanto mais próxima uma planta se encontrar da outra, maior o grau de competição. Quanto maior o grau competição que uma planta estiver sujeita, menor será o rendimento de grãos dessa planta. Em populações baixas, as plantas produzem um maior rendimento de grãos individualmente, enquanto que em populações altas reduz-se o rendimento de grãos por planta. Assim, as culturas apresentam um certo grau de plasticidade, ou de tolerância para a variação na população de plantas. Essa plasticidade é variável entre espécies. A soja e o arroz são espécies que, em geral, suportam variações consideráveis no número de plantas por área. Já os híbridos modernos de milho toleram pouco a variação na população, apresentando assim baixa plasticidade, devido à baixa capacidade de perfilhamento e produção, normalmente, de uma única espiga por planta.

Para ilustrar o aspecto de competição, imagine o efeito da distribuição das plantas ao longo da linha de semeadura, em duas lavouras, apresentando o mesmo número de plantas por área. Em uma distribuição ideal, as plantas encontram-se distribuídas de forma eqüidistante. Considerando, nesse caso, uma lavoura de soja com 250.000 plantas/ha, e 0,45m de distância entre as linhas, as plantas vão estar localizadas a 8,9cm uma da outra. Essa condição proporciona o menor grau de competição entre elas, uma vez que cada planta estaria localizada a uma mesma distância de cada uma das duas plantas vizinhas na linha. Qualquer outra combinação afetará a produtividade da lavoura - isso, baseado nos conhecimentos de nutrição de plantas, fotossíntese, disponibilidade de água, entre outros fatores.

Em lavouras altamente produtivas, as plantas encontram-se submetidas a elevado grau de competição, pelos recursos de crescimento, que normalmente encontram-se disponíveis em quantidade limitada, e, por isso, são insuficientes para atender a demanda combinada de todas as plantas da lavoura. Os fatores pelos quais as plantas podem competir são: água, luz, nutrientes, oxigênio e dióxido de carbono. Dessa forma, a posição que a planta encontra-se relativamente às outras plantas dentro da lavoura afeta o grau de competição a que a mesma estará submetida, e assim, da capacidade de suprimento daquele recurso limitante. Dessa forma, as plantas que encontram-se mais próximas umas das outras estarão sujeitas a um maior grau de competição pelos recursos de crescimento.

Nesse contexto de distribuição uniforme das plantas nas lavouras, as falhas que ocorrem podem ter sido ocasionadas pela qualidade das sementes como também pelo processo de semeadura em si, em que a semente simplesmente não foi depositada no local destinada a ela. Outra situação é que, além da falha, pode ocorrer a deposição de duas sementes em um mesmo local, que produzirão duas plantas, os chamados duplos. Nessa situação, duas plantas tentam ocupar o mesmo espaço, e o que se observa é um elevado grau de competição entre as mesmas, com redução no rendimento de grãos das duas, bem como plantas com caules mais finos e com menor produção de área foliar.

As plantas duplas apresentarão um comportamento de semeadura em alta densidade, com redução no rendimento por planta. Se estivermos considerando uma lavoura com um número fixo de plantas por área - por exemplo, 250.000 plantas/ha -, cada ponto de semeadura com duas plantas representará uma redução no rendimento por hectare e, quanto maior o número de duplos, maiores serão as reduções no rendimento de grãos dessa lavoura.

No contexto atual, onde se está vendendo/comprando sementes pelo número de unidades suficientes para semear um hectare, e não mais pelo peso de sementes, na melhor das hipóteses, onde ocorrer uma semeadura dupla, há alta probabilidade de ocorrer uma falha de deposição de semente em algum ponto de semeadura. Então, nesse caso, além de ocorrer prejuízo no rendimento, pela redução do rendimento por planta no duplo, vai ocorrer prejuízo também pela falta dessas plantas onde ocorrerem as falhas.

A ocorrência de duas sementes juntas apresenta como maior inconveniente a sobre-semeadura, pois a produção das duas sementes juntas é praticamente igual como se fosse uma. A ocorrência de uma situação de um ponto de sementes duplas/m linear em milho, com uma população de 60.000 planta/ha, significa praticamente colocar 10.000 sementes a mais por hectare, o que, a um custo de R$ 200,00/60.000 sementes, significa gastar mais de R$ 30,00/ha, sem necessidade. É bom lembrar que o sucesso de um cultivo é o somatório de vários fatores, que, juntos, vão determinar o lucro ou o prejuízo, alguns sob o controle do homem, outros não. Assim, para aqueles que se pode controlar, é recomendável utilizar todos os esforços para adotá-los ou minimizá-los.

Vários mecanismos são utilizados para que a distribuição das plantas no campo se aproxime ao máximo possível dessa distribuição ideal, ou para minimizar os efeitos negativos de distribuição menos uniforme de plantas: lotes de sementes de alta qualidade, semeadoras com sistemas mais eficientes de distribuição das sementes, classificação das sementes por tamanho, como tem sido utilizado em milho e em soja, uso de produtos que reduzam o atrito entre as sementes e garantam a melhor distribuição, como grafite ou os polímeros que existem atualmente no mercado.



Distribuição das plantas


Qualidade de Sementes
Quando se utiliza um lote de sementes de menor qualidade fisiológica, além de todos os fatores prejudiciais decorrentes, torna-se também necessário colocar um número maior de sementes por área, para compensar o menor número de plantas que não irão se estabelecer, uma vez que nem todas as sementes irão efetivamente produzir plantas.

A colocação de mais sementes por área, além de aumentar os custos, vai fazer com que as sementes fiquem localizadas mais próximas ao longo da linha de semeadura.

Assim, admitindo a situação anterior com soja, onde as plantas ficaram distantes 8,9cm ao longo da linha, e comparando com uma situação onde se faça uma correção de 20% no número de sementes a serem semeadas, em função de a germinação não ser 100%, seriam colocadas 300.000 sementes p/ha, o que resultaria em uma distância entre sementes de 7,4cm. Nessa situação, teríamos plantas mais agrupadas onde não ocorressem falhas de estabelecimento de plantas, e múltiplos espaços sem plantas naqueles pontos onde as sementes falhassem em estabelecer uma planta. Essas plantas mais próximas estariam sujeitas a um maior grau de competição entre si, o que resultaria em redução no rendimento de grãos de cada uma dessas plantas, e espaços sem plantas.

Embora a cultura de soja apresente plasticidade, fazendo com que as plantas adjacentes aos espaços sem plantas tendam a ocupar aquele espaço, torna-se impossível compensar integralmente aquele espaço sem planta, ocorrendo, assim, redução no rendimento de grãos por hectare.

Na cultura do milho, devido ao uso de populações mais baixas e, conseqüentemente, plantas mais distantes ao longo da linha e à baixa plasticidade das plantas, esses efeitos são maiores, assim como as reduções no rendimento de grãos por área.

Com a elevação do nível tecnológico dos cultivos e das produtividades, mais importantes vão se tornando os fatores de manejo da lavoura.

Quanto mais baixa a qualidade das sementes, maiores se tornam as correções no número de sementes a serem semeadas e a conseqüente redução na distância entre as sementes, com o agravamento dos fatores de competição. Por outro lado, quanto mais adversas as condições por ocasião da semeadura, maior o número de sementes que não resultam em plantas, quer dizer, espaços sem plantas na linha de semeadura. Está mais do que comprovado que quanto mais baixa a qualidade de um lote de sementes, mais sensível se torna a ambientes adversos na semeadura, aumentando muito o número de sementes que não resultam em plantas e, conseqüentemente, o número de falhas na linha. Vários trabalhos científicos indicam que uso de sementes de menor qualidade provoca o agrupamento de plantas e aumento no número de falhas e no tamanho dessas falhas. Isto é, ocorre maior número de espaços com duas, três e até quatro, cinco sementes que não produziram plantas consecutivamente. Lotes de menor qualidade apresentam também menor homogeneidade em termos de distribuição de sementes vivas e mortas dentro da população.

Costumamos ilustrar o efeito da qualidade das sementes no processo de semeadura enfatizando que 100 kg de sementes com 100% de germinação não são iguais a 200 kg de sementes com 50% de germinação. Na primeira situação, vamos ter, com certeza, um melhor estande, com a distribuição uniforme das sementes.



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