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Reportagem de capa - mar/abr 2007
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Unidades de Beneficiamento de Sementes
Leopoldo Baudet
lmbaudet@ufpel.edu.br
Francisco A. Villela
francisco.villela@ufpel.edu.br

Numa luta de boxe, ganha o cinturão de ouro quem tiver melhor preparo físico e desempenho. Na produção de sementes, os lotes que tiverem melhor preparação física com certeza levantarão o troféu da qualidade, ao serem colocados dentro dos padrões exigidos para se considerarem semente e para enfrentar sua comercialização visando à satisfação total do cliente, o agricultor.

A qualidade do lote de sementes é finalmente consolidada após seu beneficiamento, que compreende todas as etapas pelas quais as sementes passam até ficarem prontas para a semeadura. O beneficiamento dos lotes de sementes ocorre na Unidade de Beneficiamento de Sementes, comumente chamada de UBS.

Esta unidade começa a ganhar importância no processo logo depois que as sementes são colhidas, e seu planejamento deve seguir normas e procedimentos adequados que permitam ao produtor de sementes ficar com seu produto pronto na hora certa, na quantidade necessária e com a qualidade desejada. Na verdade, a UBS é o local onde o produtor leva os possíveis compradores para visitar, por isso é considerada a vitrine da empresa produtora de sementes. Portanto, a UBS e seu alto investimento devem ser o orgulho do produtor, devendo se apresentar limpa, funcional, eficiente, segura e economicamente viável.

No planejamento da UBS são necessárias informações básicas preliminares que subsidiem a elaboração, tais como avaliação do local (meios de transporte, mão-de-obra, condições climáticas, energia elétrica), condições de beneficiamento (espécies, cultivares, épocas de semeadura e colheita) e condições de armazenamento (tipo e período de armazenamento, embalagem).

Colheita e secagem das sementes
Por princípio, a colheita deve ser efetuada o mais próximo possível do ponto de maturidade fisiológica das sementes, assim que seu grau de umidade (para a debulha mecânica) e as condições climáticas locais permitirem. Assim sendo, as sementes provenientes do campo geralmente apresentam teor de água incompatível com o manuseio e armazenamento, necessitando, portanto, de secagem artificial. Isto deve ser interpretado como as sementes na mão do produtor com uma umidade tal que se podem deteriorar em 24 horas, se a sua secagem não for processada.

No estado do Rio Grande do Sul, pode-se dizer que no mínimo 60% da produção de sementes de soja passam pela secagem, já que as sementes começam a ser colhidas com 18% de umidade. Todavia, no estado do Mato Grosso, 100% das sementes de soja sofrem secagem, devido à elevada incidência de chuvas na época de colheita. Em regiões mais secas, com baixa umidade relativa do ar e ausência de chuvas próximo da colheita, a necessidade de secagem é mínima, uma vez que as sementes são colhidas bastante secas.

No planejamento da UBS deve-se considerar, na secagem, não somente a aquisição de secador, mas o melhor sistema de secagem. O sistema de secagem compreende a moega de recebimento, o elevador e/ou outro transportador, a máquina de pré-limpeza, elevador, silo de produto úmido, elevador, secador, silo do produto seco ou regulador de fluxo, além do sistema de aquecimento do ar de secagem, ou seja, fornalha, queimador a gás, resistência elétrica, etc.

O ideal é que a capacidade de secagem da UBS seja suficiente para secar o que foi colhido no dia, salvo se os silos de produto úmido sejam dotados de sistema de ventilação. Entre os secadores para sementes são recomendados os intermitentes (ou contínuos adaptados para intermitência), que em geral podem secar de teores de água de 18% para 13%, até quatro cargas por dia e os estacionários ou silos secadores que em geral secam uma carga por dia.

Os secadores são aliados dos produtores de sementes, ao permitir que lotes sejam secos sob condições padronizadas e uniformes, garantindo uma eficiente remoção de água das sementes (secadores intermitentes de 0,8 a 1,5 ponto percentual por hora) sem afetar a qualidade fisiológica das sementes, cuidando-se para que a temperatura da massa de sementes nunca exceda 40°C.

Os secadores estacionários de fundo falso ou tubo central perfurado apresentam menor capacidade diária de secagem, com remoção de 0,3 a 0,5 ponto percentual por hora, porém podem ser utilizados como silos armazenadores e durante a secagem não há movimentação das sementes, minimizando eventuais danos mecânicos.

A seguir será considerado o planejamento de uma UBS para uma empresa que deseja produzir 2.000 toneladas de sementes de soja (50.000 sacos de 40 kg). Para produzir essa quantidade de sementes de soja, a empresa deve programar sua lavoura para no mínimo 900 ha considerando um descarte mínimo de 50% (25% de campo e 25% de beneficiamento e secagem). A colheita leva de 30 a 45 dias para colher 2.500t (900 ha x 2,8 t/ha). Logo, se deve programar para receber efetivamente, em 40 dias, 62,5 toneladas/dia, que deverão ser secas.

Um secador intermitente, com capacidade estática de 8 t, ao secar três cargas por dia, permite secar 24 t em 24 horas; assim, para secar as 63 t deve-se programar mais dois secadores de 8 t.

Se o produtor escolher secador estacionário, seis silos secadores de madeira com distribuição radial do ar de 8 t de capacidade, possibilitaria secar um total de até 72 t por dia, considerando 1,5 carga por dia.

Procedimento similar pode ser considerado para uma empresa que trabalhe com maior quantidade de sementes.

Limpeza das sementes
No beneficiamento de sementes são levadas em consideração as características físicas diferenciais entre as sementes e os componentes indesejáveis presentes no lote, bem como os princípios mecânicos utilizados para tal fim. Para a maioria dos lotes de sementes, é necessário usar-se mais de um tipo de máquina, para que se possa obter sementes de qualidade adequada à comercialização.

No planejamento de uma UBS, muitos fatores devem ser considerados para que se venha a obter pleno êxito. Uma UBS deve ser planejada de tal forma que a semente possa ser recebida, pré-limpa, secada, limpa e classificada, tratada, embalada, armazenada e distribuída.

Os equipamentos de transporte, secagem, limpeza e classificação devem ser distribuídos de modo que a semente venha a ter fluxo contínuo desde a recepção até o local de embarque para distribuição. Esse arranjo dos equipamentos deve ser suficientemente flexível para que possa desviar-se de qualquer equipamento da UBS desnecessário, sem afetar o fluxo e a qualidade das sementes. Também é indispensável que seja planejado um sistema para eliminação do pó e dos materiais indesejáveis retirados nas diversas operações utilizadas na limpeza e classificação das sementes.

Na maioria dos casos, quando as finanças assim permitirem, é melhor planejar-se um prédio novo para a instalação da UBS, pois poucos são os casos em que um prédio já existente está adequadamente localizado e dimensionado. Instalar uma UBS em local não adequado só porque o prédio existe, geralmente acarreta problemas adicionais. Alguns pontos importantes devem ser considerados, como: determinação da localização do secador, local da recepção das sementes e o arranjo dos equipamentos envolvidos na limpeza e classificação de sementes. Portanto, a localização do prédio deve ser familiar para a pessoa que esteja planejando, antes de começar a arranjar os diversos equipamentos envolvidos no beneficiamento de sementes e os espaços para locomoção e armazenamento de sementes.

Sabe-se que, para sementes de trigo e arroz, os meios utilizados para limpeza e classificação, bem como para a secagem, são praticamente os mesmos, mas para soja, milho, sementes de forrageiras e de espécies olerícolas os meios provavelmente sejam outros.

Seleção do equipamento
Uma vez programada a quantidade desejada após o beneficiamento considerando ainda a expectativa de crescimento futuro e conhecida a(s) espécie(s) e seu fluxograma de beneficiamento, os equipamentos são selecionados com a ajuda de catálogos, informações de outros produtores, visitas a outras UBSs e conhecimento prévio.

Antes da aquisição do equipamento muitos aspectos específicos para cada máquina devem ser considerados: controle da alimentação da máquina, colocação e facilidade de troca das peneiras, ajuste do fluxo de ar, limpeza da máquina, tipo e tamanho do alvéolo do cilindro e facilidade de troca, rotação do cilindro, consumo de energia, robustez, tamanho da máquina, fontes potenciais de danificação mecânica às sementes, controle de temperatura do ar de secagem ou da massa de sementes, controle de umidade e outros.

Outro importante aspecto na seleção do equipamento é a capacidade das diversas máquinas, que deve ser equivalente para assegurar o fluxo contínuo das operações. Se uma determinada máquina tiver menor rendimento do que outra, dever-se-á considerar a instalação de duas dessas máquinas em paralelo, como é o caso de dois cilindros separadores para cada máquina de ar e peneiras com quatro peneiras.



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