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Reportagem de capa
continuação: O Cultivo do Milho para Altos Rendimentos
O novo conceito de "alto rendimento" passa necessariamente pela adoção de híbrido de "alto potencial", seja qual for o rendimento final obtido. Esta mudança na conceituação se deve fundamentalmente à incorporação aos híbridos de características de maior eficiência no uso dos fatores do meio, na transformação de sua massa seca em grãos e na maior tolerância a estresses ambientais.
Os fatores básicos de produtividade são a utilização máxima da radiação solar, combinada com temperatura e disponibilidade hídrica adequadas. Para isso, é necessária a adoção de altas densidades de plantas para obter área foliar adequada para captar rapidamente a radiação incidente e mantê-la por longo período após o espigamento. A radiação é fator fundamental para fixação de CO2 pela fotossíntese e para a produção de massa seca que, de forma eficiente, é convertida em grãos. Alta densidade de plantas só é indicada se o híbrido tolera alta competição entre plantas, e consegue emitir espiga e produzir grãos. Estes aspectos morfo-fisiológicos da planta foram as características que mais se modificaram na última geração de híbridos. De uma maneira geral, elas já vinham sendo modificadas ao longo do tempo, o que permitiu o aumento na densidade de plantas. No entanto, além da maior tolerância à competição entre plantas, observou-se que houve também a incorporação de boa capacidade produtiva em situações em que a lavoura é submetida a outros tipos de estresses, como de água ou de nutrientes.
Cabe analisar o conceito, em voga, de utilizar cultivares de populações abertas ou híbridos de baixo potencial em lavouras de média ou baixa produtividade de grãos, com a justificativa de que se tratam de materiais "rústicos", com alta tolerância a estresses ambientais. O uso de híbridos simples modernos, de alto potencial, nestas situações, mostra que eles também são mais adaptados e mais tolerantes a estes estresses que as antigas populações. O maior custo de semente destes híbridos pode, na maioria dos casos, ser compensado pelo incremento obtido na produtividade de grãos.
Tab. 1 - Principais inovações tecnológicas associadas à lavouras de alta produtividade, por décadas, no Brasil

Principais mudanças na nutrição da planta
Altos rendimentos de grãos são atingidos quando o solo for capaz de suprir as necessidades nutricionais das plantas e armazenar água suficiente para que pequenos períodos sem precipitação pluvial não sejam prejudiciais à planta.
Considerando que a maioria dos nutrientes é absorvida entre a emergência e o espigamento, a sua liberação pelo solo deve ser rápida e em grande quantidade. Estas quantidades raramente são supridas pelos solos, caso não seja realizada adubação, seja química ou orgânica. Os solos das principais áreas produtoras de milho são, em geral, deficientes em fósforo e com matéria orgânica não suficiente para suprir as necessidades de nitrogênio da cultura.
As recomendações de dose de adubação têm aumentado nos últimos anos, em razão do aumento da produtividade de grãos. Para atingir altos rendimentos, é necessário que os nutrientes sejam colocados à disposição da planta já a partir da semeadura. O sistema de plantio direto na palha modificou a recomendação de adubação, pois considera não só os rendimentos esperados, como também a contribuição da cultura anterior, especialmente na adubação nitrogenada.
A grande modificação na adubação está na interação entre doses de nutrientes recomendada e a espécie e o rendimento de massa seca da cultura que antecede o milho. Esta interação é essencial para promover altos rendimentos. A potencialização do rendimento de grãos de milho só é obtida quando se cultiva em sucessão a uma espécie que não seja gramínea. Este efeito interativo não é bem conhecido e não pode ser explicado apenas pelo aporte de nutrientes que a espécie antecessora fornece.
Tab. 2 - Rendimentos máximos de grãos obtidos em experimentos conduzidos sob condições de alto nível de manejo (irrigação suplementar, elevada adubação e densidade de plantas)

Principais mudanças na época de semeadura
Os produtores escolhem as épocas de semeadura, baseados nos riscos de deficiência hídrica nos períodos críticos, de temperaturas baixas e de geada e no sistema de rotação e sucessão de culturas. Com isso, observam-se nas regiões mais quentes semeaduras em até sete meses no ano, desde julho até janeiro. Em regiões mais frias, é possível semear de outubro a início de dezembro.
A ampla faixa de semeadura é adotada, geralmente, quando os rendimentos não são elevados. À medida que se deseja melhorar a produtividade de grãos, deve-se considerar com maior prioridade os fatores temperatura do ar e radiação solar, que devem ser altos durante o pré-florescimento ao estádio de grãos leitosos. Com isso, a melhor época de semeadura de milho para o estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, é a do mês de outubro, para que o florescimento ocorra em dezembro e o enchimento de grãos em janeiro e fevereiro. Esta recomendação deve ser adotada em regiões com baixo risco de deficiência hídrica em dezembro, janeiro e fevereiro, ou sob condições de irrigação suplementar.
Quando o risco de falta de água no verão é alto ou, dependendo da seqüência de cultivos adotados, o produtor semeia no início da estação ou no final do período possível de instalar a lavoura (safrinha). Em um caso ou outro, em ambas as épocas, a lavoura não se beneficia de toda a radiação solar e os rendimentos são potencialmente mais baixos.
Os efeitos da falta de água são muito drásticos na lavoura de milho, resultando em sérias restrições ao rendimento de grãos. Os períodos de deficiência hídrica são ocasionais e não bem definidos na época do ano em que acontecem. Isto complica sobremaneira a tomada de decisão de escolher a época de semeadura. Observa-se que há uma concentração de semeadura em época bem definida para cada região. A decisão é geralmente tomada em razão dos riscos de deficiência hídrica durante o ciclo da cultura. As semeaduras do início da estação (em geral, em agosto) são menos sujeitas à falta de água. O prejuízo decorrente da menor radiação disponível às plantas no início do ciclo é parcialmente compensado pela alta insolação verificada em dezembro/janeiro, no final do ciclo, que beneficia o enchimento de grãos. As semeaduras na safrinha (dezembro/janeiro) apresentam menor potencial, pois o florescimento vai ocorrer no início de março, quando a radiação solar é baixa, com menor perda no enchimento de grãos em março/abril. Além disto, as plantas estão mais sujeitas ao ataque de moléstias nesta época tardia.
Rendimentos de grãos acima de 10 t/ha, atualmente, já são atingidos em semeaduras de agosto/setembro. Isto demonstra que o potencial dos híbridos poderá ser ainda maior se a semeadura for realizada no mês de outubro, onde não haja risco de falta de água.
Principais mudanças no arranjo de plantas
Altos rendimentos de grãos de milho só podem ser obtidos com o perfeito ajuste do número de plantas por unidade de área. O número ideal de plantas por área é determinado de acordo com a cultivar utilizada, a forma de uso do milho, o nível de fertilidade do solo e de adubação prevista e o risco de falta de água durante o ciclo.
Nas melhores condições de ambiente, os atuais híbridos são recomendados com densidade de até 70.000 a 75.000 plantas/ha, para obtenção de rendimentos de lavoura entre 12 a 13 t/ha. A recomendação de densidade deve ser reduzida em ambientes menos favoráveis, como sob baixa fertilidade de solo ou deficiência hídrica.
A densidade de plantas foi aumentando gradualmente nos últimos 50 anos, graças à entrada no mercado de híbridos tolerantes ao estresse imposto pela maior competição entre plantas, mas de forma mais efetiva, nos últimos 10 anos.
A planta de milho apresenta uma característica peculiar quanto à reação ao aumento da densidade de plantas. A capacidade de emitir espiga e saída dos estigmas depende em alto grau da tolerância que cada cultivar tem a esse estresse. As antigas populações crioulas e os primeiros híbridos lançados no mercado eram desprovidos desta capacidade e as densidades máximas recomendadas raramente ultrapassavam 50.000 plantas/ha. A descontinuidade no enfoque na busca de materiais com esta característica só foi rompida em meados da década de 1990, quando surgiram alguns híbridos simples tolerantes a altas densidades de plantas. A resposta do milho a altas densidades varia, além do híbrido e das condições hídricas e nutricionais do solo, com o espaçamento entre linhas.
Além da densidade de plantas, o espaçamento entre linhas é outra forma de manipular o arranjo de plantas em milho.
O espaçamento entre linhas foi diminuindo ao longo do tempo, passando de 1,0m para 0,50m. Os espaçamentos maiores, que eram utilizados para facilitar o sistema de consórcio e o controle de plantas daninhas à tração animal, foram mantidos no início do período de mecanização para facilitar a capina. O uso do sistema de plantio direto na palha eliminou a capina mecanizada pelo uso de herbicidas seletivos, e a distância entrelinhas pôde ser diminuída.
 Espaçamento entre linhas de 0,45m
O menor espaçamento entre linhas permite o arranjo de plantas de forma mais eqüidistante. A vantagem desta situação é a rápida cobertura de solo, com melhor aproveitamento da radiação solar e menor perda de água. Ela só é obtida em situações de alto rendimento de grãos em que o uso da radiação solar é o fator limitante ao rendimento. Outro benefício advindo do uso de espaçamento entre linhas mais reduzido é o controle mais eficiente de plantas daninhas, devido ao sombreamento mais rápido do solo. Geralmente, quando as lavouras têm restrições mais graves, que causam menores rendimentos de grãos, não há benefícios do uso de menor espaçamento entre linhas. Normalmente, os benefícios advindos do uso de espaçamento entre linhas reduzido sobre o rendimento de grãos é pequeno, variando de zero a 10%.
Por que a necessidade de obtenção de altos rendimentos?
A maior economicidade da lavoura de milho, geralmente, é obtida com manejo que resulta em altos rendimentos de grãos. A adoção deste conceito tem pautado a discussão sobre a real necessidade de se atingir altas produtividades com maior retorno por hectare de lavoura. Os dois pontos essenciais neste debate são: probabilidade de riscos climáticos e capacidade de investimento do produtor.
Os riscos climáticos referem-se, principalmente, aos freqüentes períodos de seca em momentos não previsíveis. Neste sentido, uma linha de pensamento propõe que, em regiões mais suscetíveis aos riscos, as lavouras devem ter menor investimento em insumos e utilizar híbridos de menor potencial. Neste caso, havendo deficiência hídrica, os prejuízos econômicos seriam menores. No entanto, com essa estratégia, os rendimentos esperados não serão altos se as condições climáticas forem favoráveis durante a estação de crescimento. A longo prazo, a lucratividade será pequena, pois, embora os prejuízos nos anos secos sejam menores, os ganhos nos anos favoráveis não serão grandes.
 Espigas com mais de 500 sementes indicam alta produtividade
Outra linha de pensamento, em que o produtor tem capacidade de investir em insumos, propõe investimentos visando altos rendimentos, mesmo enfrentando riscos de eventual falta de água, mas apostando em ganhos maiores e compensadores em anos favoráveis. A pesquisa tem demonstrado que cultivares que recebem manejo para potencializar o rendimento de grãos são mais tolerantes ao estresse hídrico do que aquelas que receberam menores investimentos. As plantas têm maior crescimento, o que permite tolerar períodos de estresse com mais sucesso. O êxito dos produtores decorre da constatação de que há rentabilidade do milho quando a produtividade é alta, pois as margens de lucro só se viabilizam nesta situação.
Os custos diferenciais entre uma lavoura de média e alta produtividade estão no custo da semente e dos outros principais insumos, como fertilizantes e produtos químicos. Os incrementos de rendimento de grãos têm sido de ordem a cobrir o aumento dos custos e viabilizar a lavoura.
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