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Reportagem de capa - maio/jun 2006
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O Cultivo do Milho para Altos Rendimentos
Prof. Dr. Claudio M. Mundstock
cmmundsttock@ufrgs.br
Prof. Dr. Paulo Regis F. da Silva
paulo.silva@ufrgs.br


Os rendimentos médios de grãos de milho no Brasil evoluíram continuamente, especialmente desde a metade do século passado. Os principais fatores para a elevação da produtividade foram: uso de cultivares com maior potencial de rendimento, maior uso de fertilizantes e defensivos, máquinas agrícolas mais eficientes e adoção do sistema de "plantio direto na palha, com rotação e sucessão de culturas". O uso destas ferramentas só foi possível através da geração de informações técnicas, graças ao eficiente sistema de pesquisa realizada por diversas instituições públicas e empresas privadas.

No início da colonização, os rendimentos de grãos raramente ultrapassavam 1,5 t/ha e só nas primeiras décadas do século passado observou-se aumento da produtividade, devido à introdução de cultivares mais produtivas.

A adoção conjunta de cultivares melhoradas, de insumos e técnicas de cultivo adequados, fez com que os rendimentos das lavouras passassem a ser progressivamente mais elevados, década após década. A evolução das técnicas de cultivo, do manejo da lavoura e do uso de cultivares adequadas é sintetizada na Tabela 1, com a produtividade média obtida nas melhores lavouras em cada década.

Qual o potencial para altos rendimentos de grãos de milho

Altos rendimentos de grãos resultam do sucesso em utilizar os fatores do meio com máxima eficiência, minimizando as causas adversas ao desenvolvimento da cultura. Esta complexa equação é dependente, principalmente, de três fatores meteorológicos: a radiação solar, a temperatura do ar e a disponibilidade hídrica.

A potencialização do uso dos recursos do ambiente só pode ser expressa em cultivares adequadas. As populações crioulas não apresentam bom potencial de rendimento, uma vez que foram selecionadas em função de sua adequação aos sistemas de consórcios e à tolerância a fatores adversos. Com o processo de melhoramento genético, inicialmente com o desenvolvimento de cultivares sintéticas e, depois, dos híbridos, surgiram cultivares capazes de utilizar eficientemente os fatores do meio e de tolerar densidades de plantas mais elevadas.

As diferenças de potencial de rendimento de grãos de cultivares de população aberta melhoradas, sintéticas, híbridos duplos e híbridos simples, quando cultivadas em condições de alto nível de manejo são vistas na Tabela 2, que mostra a evolução da genética utilizada nos programas de melhoramento de milho.

O Departamento de Plantas de Lavoura da URGS, realiza há quase quatro décadas estudos sobre rendimento potencial num mesmo ambiente. Estes estudos mostram que, já na década de 1970, havia híbridos com alto potencial de rendimento. A partir daí houve uma estagnação no potencial de rendimento. Os híbridos de maior produtividade só começaram a surgir no mercado na década de 1990 frente à demanda dos produtores em decorrência da melhoria das condições de solo (aumento da fertilidade), ao uso de sistemas de rotação e sucessão de culturas em plantio direto, ao uso de densidades de plantas mais altas e à redução do espaçamento entre linhas.

Principais mudanças nos sistemas de cultivo

O sistema de cultivo compreende o complexo de técnicas adotadas em cada cultura nas suas interações com as demais (rotação e sucessão cultural), com o manejo de resíduos culturais e com o preparo de solo. Ele é o componente mais complexo na determinação do rendimento de grãos e seus efeitos são visíveis somente algum tempo após a adoção do sistema escolhido. O sistema de cultivo é o principal determinante para a obtenção de altos rendimentos de grãos e não deve ser alterado de ano para ano, pois tem efeito cumulativo nos benefícios às culturas.

O atual sistema de cultivo, iniciado ao final da década de 70, mas plenamente adotado no início da década de 90, está baseado no plantio direto na palha, sem revolvimento do solo, e na adoção de sistemas de rotação e sucessão cultural adequados. Houve redução drástica da erosão e progressiva melhoria das condições físicas e químicas do solo. Com isto, foi possível utilizar de forma mais efetiva outras técnicas de cultivo, que aumentaram o rendimento de grãos, como, por exemplo, o uso de cultivares com maior potencial de rendimento, de densidade de plantas mais elevadas e de espaçamento entre linhas reduzido.

A rotação e a sucessão de culturas são os pontos fundamentais do sistema de produção de grãos com plantio direto na palha. A adoção deste sistema propiciou a elevação dos rendimentos de grãos que, pela primeira vez, ultrapassaram 10 t/ha, em grande número de lavouras.

Principais mudanças na genética da cultura

O potencial genético de uma dada cultivar de milho é fundamental para a obtenção de altos rendimentos de grãos, conjuntamente com a melhoria do ambiente e das condições de manejo da cultura. Os recursos genéticos do milho à disposição do agricultor variaram muito ao longo das últimas décadas. As principais marcas dessa mudança foram:

a) substituição de populações crioulas por populações melhoradas (décadas de 1930 a 1950);

b) adoção nas lavouras de híbridos duplos, nas décadas de 1950 e 1960; e

c) uso de híbridos simples e triplos, de alta produtividade, a partir da década de 1990.

A seguir, serão apresentadas algumas características de planta que determinaram o aumento do rendimento de grãos em cada uma destas três etapas:

1ª. Introdução de populações melhoradas - O início do século XX foi marcado por forte intercâmbio de material genético entre pesquisadores. O Brasil, na época, também introduziu cultivares de outros países, especialmente dos Estados Unidos, que formaram a base de desenvolvimento de populações mais produtivas que as antigas populações crioulas.

Este intercâmbio genético incrementou o rendimento de grãos, devido à melhoria das características morfo-fisiológicas da planta. A principal delas foi a maior uniformidade entre plantas, especialmente em estatura, altura de inserção e tamanho de espiga. Estas populações toleravam densidades de plantas um pouco mais altas que as anteriores, o que elevou os rendimentos de grãos.

2ª. Introdução de híbridos duplos - Na década de 1950 ocorreu uma das maiores revoluções no melhoramento genético, pela introdução comercial de híbridos duplos de milho. As principais características dos híbridos duplos que determinavam altos rendimentos foram tolerância à maior densidade de plantas e maior uniformidade entre plantas, no tamanho de espiga, estatura de planta e altura de inserção de espiga. Os aumentos no número de grãos por espiga (espigas maiores) e na densidade de plantas foram os principais fatores responsáveis pelo incremento do potencial de rendimento de grãos, verificado com a introdução de híbridos duplos. Muitos híbridos duplos ainda estão sendo comercializados e seu uso é a melhor opção para a obtenção de rendimentos e retorno econômico elevados, em casos específicos de manejo.

3ª. Introdução de híbridos simples - Os híbridos simples e triplos de alto potencial de rendimento foram introduzidos na segunda metade da década de 1990. Os primeiros híbridos simples, introduzidos no final da década de 1980, não apresentavam maiores vantagens sobre os bons híbridos duplos então disponíveis. A mudança na visão estratégica das empresas ao introduzirem híbridos simples adaptados às condições de ambiente, especialmente aos tipos de solo, aos estresses de água e de temperatura, responsivos à adubação química e a altas densidades de plantas, possibilitou a obtenção de rendimentos de grãos acima de 10 t/ha, a nível de lavoura.

A evolução da melhoria genética evidencia que, potencialmente, houve ganho genético com o passar do tempo, e esse ganho é expresso mesmo em condições de baixo nível de manejo, contrariando um conceito generalizado de que, sob condições de estresse, as populações abertas seriam mais indicadas que os híbridos.



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